terça-feira, 22 de outubro de 2013

Primeiro estranha-se e depois se entranha

"Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz!"

                                                                                                          Pero Vaz de Caminha 1 de Maio de 1500.
BRASIL

Cheguei há dois meses e meio ao Rio. Quando aterrei senti medo, calor e surpresa. Na primeira semana fiquei alojada no Catete. Cheguei de noite e o corpo sentiu o momento em que saí do aeroporto: tive febre e dores de cabeça. Quando chegamos ao Brasil, é natural nas primeiras semanas o corpo reagir desta forma. Estes sintomas também são do dengue, que é uma doença que paralisa o corpo com muitas dores. Aterrorizada com as doenças tropicais, quando senti febre, liguei à minha mãe a chorar (antes de ficar paralisada…), porque achava que tinha dengue. Afinal eram só dores de cabeça, que duraram apenas dois dias. O corpo demora a habituar-se ao novo clima mais húmido.
Mudei-me para uma república: o 256 da Nossa Senhora de Copacabana. Uma república com onze estudantes e viajantes. Naquele apartamento morávamos três franceses, três alemães, uma inglesa, uma holandesa, uma finlandesa e uma brasileira, além de mim.
A nossa casa estava abandonada à nossa sorte. Não tínhamos quaisquer regras. De duas em duas semanas tínhamos novos colegas de casa. Esta casa era velha e cheia de móveis, alguns que só ocupavam espaço e pó. A Isabel, a dona da casa, morava em Londres e todos os novos moradores, normalmente gringos, faziam um acordo qualquer com ela no Facebook e entravam na casa. Pagavam o depósito de entrada àquele que saía e, assim sucessivamente, ela fazia o seu negócio.
Tornámo-nos amigos, nós, aqueles que não abandonavam a casa.





Durante o primeiro mês não fui às aulas. A surpresa e a descoberta dos lugares ocupava a maior parte do tempo. Curiosamente pouco tempo depois de chegar consegui um estágio. No Paço Imperial, na Praça XV, a casa que a família Real veio habitar quando se transferiu para o Brasil. D. João chegou ao Rio de Janeiro em 1807. Ele e sua capitania tiveram a maior recepção já antes vista nesta cidade. As embarcações ancoraram no Mergulhão, onde hoje apanho o autocarro para chegar à praça e aqueles que, por graça de Deus eram os príncipes do Reino Unido de Portugal, do Brasil e dos Algarves, desceram e instalaram-se no Paço. Lá viveram D.João, sua esposa Carlota Joaquina, D.Pedro e D.Miguel. No mesmo lugar D.Pedro, anos mais tarde, proclamou o dia do Fico, e assim tornou o Brasil independente. Esta chegada do D.João é um marco na história do Rio de Janeiro. Repetidas vezes, no Paço, ouvi histórias, segredos e conspirações sobre a família real que tanta curiosidade ainda hoje desperta naquela que foi considerada, pela vinda destes, a nova e última Capital do Império.
A sombra da colonização que vez nenhuma havia sentido em Portugal, vim sentir aqui quando me perguntaram: “Então portuguesa, está gostando da colônia?” Ao qual eu respondi: “Não sei, diga-me você, acabei de chegar à Capital do Império”. O Brasil é uma terra muito grande na qual os portugueses tiveram um pouco de influência. Mas na pouca que tiveram restou a nossa língua, comum aos dois países que torna a nossa comunicação tão fácil e calorosa. A verdade é quando um português chega ao Rio de Janeiro conhece mais sobre a sua terra do que alguma vez podia imaginar. A descoberta desta cidade e esta viagem para o mundo trouxe-me uma consciência do tamanho do meu país.
As festas e os encontros no morro do Vidigal, na praia do Leme, na Rua do Ouvidor e em Santa Teresa, que é igual a Lisboa antiga, mas com bananeiras, ocupavam estas primeiras semanas no Rio.
Quando cheguei à Unirio descobri uma escola que estava atrasada cinco meses com a greve dos professores. Lentamente consegui inscrever-me, tirar o meu CPF (o número de registo que serve para tudo no Brasil.) Neste início, tive alguns problemas com a burocracia. Em Portugal no Consulado do Brasil tirei o meu passaporte e assim entrei no Brasil sem precisar de qualquer visto ou autorização. Note-se que, desde o Verão passado, eu sou também brasileira, por ter adquirido a nacionalidade do meu Pai, o que facilitou, de algum modo, a minha vinda.
Aqui no Brasil, para tirar a carteira de trabalho ou o CPF, os documentos que tinha não eram suficientes. Precisava registar os meus documentos no Brasil porque os que fizera no consulado não eram válidos, diziam. Este rebuliço de registo dos documentos no Brasil durou algumas semanas.
Em alguns lugares, este registo custava cerca de 300 reais, noutros 200, enfim, as versões eram diferentes consoante os lugares, embora todos do mesmo ministério. Foi assim até ao dia em que fui atendida por um filho de portugueses que adorava o meu sotaque e deu um jeitinho brasileiro. Carimbou tudo o que precisava, e ainda tratou de me escrever um documento para que eu pudesse passar à frente de toda a gente no Ministério da Fazenda. Assim foi, tratei de tudo no próprio dia.
Na faculdade a secretaria abre às 14 horas e fecha as 17. Todos os dias esperava que ela abrisse para resolver o meu problema das equivalências e finalmente inscrever-me. Mas foi só no dia em que apareci às 17.30 que resolvi tudo. Estava a funcionar na calma olímpica, a única que o Alfredo (o da secretaria) conhece. Existem algumas receitas para viver no Rio de Janeiro: elas são o relaxe e a recusa da pressa. Pelo menos na chegada seguir esta receita é essencial, caso contrário somos condenados a ficar irritados cada vez que dependemos de um documento para resolver um assunto.
Mais uma vez tive a possibilidade de escolher as disciplinas que queria. Então decidi fazer um laboratório multimédia e uma disciplina de produção de texto na Faculdade de Letras. Nesta possibilidade não ignorei a experiência que tenho vivido até aqui. A primeira vez que entrei na Unirio reparei no mural pintado da escola de teatro: é um Shakespeare. Um Shakespeare grafitado que, pelo tamanho, se acredita ser uma referência desta escola. Então pensei o que faz o Shakespeare no Brasil? Não deveria ser o Machado de Assis, ou a Carmen Miranda? Imaginei o Shakespeare com umas bananas na cabeça a dançar o samba. E a pergunta surgiu: como seria um Shakespeare brasileiro? Na arte brasileira encontramos ainda a herança do manifesto antropofágico . A integração daquilo que vem de fora e a sua identificação com o país. Propus-me procurar as personagens de Shakespeare no Rio de Janeiro. Durante três meses, captei com a minha câmara todos os momentos que me pareceram relacionar-se com os pensamentos e as histórias das personagens do Shakespeare. Filmei na rua e dentro de casa. Encontrei várias Ofélias e Hamlets, e através deles a afinidade desses momentos com o texto. É uma visão muito particular e arriscada mas sendo o Shakespeare um cânone ocidental, a obra dele trouxe um fio condutor a estes três anos. Foi o único autor sobre o qual sempre trabalhei. Na ESTC, em Warwick e agora finalmente na Unirio.



"Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropográfico."
Oswald de Andrade

O CONVITE
Nesta terceira parte do meu relatório, faço um convite à Viagem. Ela é, mais do que qualquer escola, a aprendizagem em si mesma, a valorização da experiência, da paisagem do objecto e das pessoas. Octavio Paz, poeta peruano, disse: "Sartre era mau viajante porque tinha muitas opiniões." Sartre viajou pelo Brasil. Ele, filósofo francês, escreve sobre as suas descobertas na América Latina. Uma célebre conferência em São Paulo gerou muita polémica quando Sartre define a literatura francesa como a literatura universal e a brasileira como popular:

" No Brasil, por exemplo, creio que uma litera-
tura popular deve expressar, necessariamente,
os problemas e as contradições do país em luta
       contra o subdesenvolvimento. Fora disso não
       há literatura popular, pois se limitaria ao
que é exótico, ao anedótico."
                                                                                                     Conferência da Araraquara, Jean Paul Sartre, UNESP, 1960

Então faço este convite para aqueles que partem para a viagem já saciados daquilo que vão encontrar.
Muitas vezes para os portugueses, chegar ao Brasil é aterrar num lugar já explorado e conhecido. Então pensei como seria partir à procura de qualquer coisa.





"O ser humano tem uma tendência para ser agregar, gosta de se juntar em grupos de grande dimensão e de uma qualidade variável, colectivos mais ou menos coesos e constituídos por motivos díspares e que pode ser resumido pelos afectos: desde a semelhança física ao compartilhamento da mesma língua. O homem na sua nação e cultura, pode ser arrongate ao ponto de presumir que o outro se deve identificar com os seus preceitos, mesmo que à força. A escola, a começar pela família e as multiplas intuituições são estruturas de transmissão e produção de opiniões."
                                                             In Folder da Exposição, A Viagem, curadoria Agnaldo Farias, 2013 RJ

Não considerar um outro olhar, apreender apenas a visão de uma escola ou uma opinião específica, pode correr o risco de nos equivocar em relação aos outros lugares.
Esta ideia vem contradizer que aquele que acumula mais opinião é o mais instruído e completo de saber. Mas na verdade é um problema quando "as surpresas passam por nós sem surpresa." Porque quando a cabeça está repleta de opiniões e consequentemente de certezas, nós já não nos admiramos de nada.
Quando fazemos a mobilidade e estudamos noutros lugares este problema na escola não persiste. A transmissão de opiniões muda consoante a instituição e o país e com isto, nós, os estudantes, temos diferentes fontes onde absorver.  Este é o meu convite.

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